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A história da presença portuguesa no Canadá data da Era dos Descobrimentos, nos séculos XV e XVI. Conquanto não esteja esclarecido quem desembarcou no Canadá antes da histórica viagem de John Cabot, em 1497, julga-se que Diogo de Teive, que partiu de Lisboa em 1452, tenha previamente explorado a costa leste do continente. A sua exploração terá eventualmente influenciado figuras como a de Cristóvão Colombo. Encontra-se bem documentado que o explorador português Gaspar Corte-Rdesembarcou na Terra Nova em 1501. A sua estátua ergue-se orgulhosamente na St. John’s de hoje.

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Estátua de Gaspar Corte Real em St. John's, Newfoundland (Terra Nova)

Provas da presença portuguesa são evidentes pelos nomes de origem portuguesa em muitos locais do Canadá Atlântico. Porventura, com maior notoriedade é o nome Labrador que se julga haver sido escolhido em honra de João Fernandes, um lavrador.

Alguns historiadores mantêm que, depois dos vikings, a primeira tentativa do estabelecimento de uma colónia permanente no Canadá foi levada a cabo pelo navegador Álvares Fagundes, por volta de 1520. A localização deste estabelecimento nunca foi determinada mas crê-se que tenha sido algures em Cape Breton. Ainda que nenhumas comunidades permanentes restem, a presença portuguesa no Canadá Atlântico permanece até aos dias de hoje por via dos pescadores do bacalhau nos Grandes Bancos.

DA NOVA FRANÇA À II GUERRA MUNDIAL

Mateus da Costa, o intérprete de Samuel de Champlain nos contactos com os nativos, no primórdios de 1600, pode considerar-se como a primeira pessoa Portuguesa a viver no Canadá (também é conhecido como o primeiro indivíduo de raça negra no Canadá). Umas décadas mais tarde, um punhado de homens, provavelmente mercenários, estabeleceu-se na Acádia e na Nova França. De entre eles, o mais notável Foi Pedro da Silva (1647-1717) que navegou a sua canoa entre Montreal e Quebec City entregando correio. Ele tornou-se célebre como o primeiro carteiro canadiano e, em 2003, os Correios do Canadá emitiram um selo em sua homenagem. Este grupo de homens foi totalmente assimilado na sociedade canadiana. São os antepassados dos milhares de Dassilva (por vezes escrito Dasylva ou Dassylva) ou Rodrigue que hoje vivem no Canadá, particularmente no Quebeque.

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Selo comemorativo produzido pelos Correios Canadianos de Pedro da Silva na ocasião da celebração dos 50 anos de imigração oficial de Portugal para o Canadá.

Isoladamente, outros homens imigrantes do mundo português aportaram ao Canadá no século XIX. Francisco Silva (anglicisado para Frank Silver) estabeleceu-se em Hantsport, na Nova Escócia, e revelou-se um notável pintor naïf. Houve uns poucos homens portugueses inseridos na mescla de pesquizadores de ouro, em Dawson City, durante a era Klondike. Mais para norte, nas comunidades da costa do Árctico, pescadores portugueses, particularmente oriundos dos Açores e de Cabo Verde, eram muito apreciados como tripulantes nas expedições dos baleeiros americanos. Os seus descendentes continuam a viver em comunidades do norte, tais como Inuvik e Tuktoyuktut.

No início do século XX, quando os navios a vapor se ornaram corriqueiros no Atlântico Norte, parece haver aumentado o número de passageiros clandestinos para o Canadá. A maior parte deles julga-se que se hajam estabelecido nas Marítimas e casado com mulheres canadianas. Francisco da Silva, que chegou em 1915, ainda adolescente, tornou-se um famoso pescador em Lunenburg e membro da tripulação da famosa escuna Bluenose. António da Silva, da Terra Nova, foi o “farol” cultural para os saudosistas pescadores da
Frota Branca (White Fleet). Eduardo António Alves, que se estabeleceu no sul do Ontário, alistou-se como intérprete do Exército Canadiano, durante a I Guerra Mundial tendo merecido uma medalha militar de Portugal. Voltou a servir na Europa, na II Guerra Mundial, e foi agraciado com medalhas militares do Canadá. Na costa ocidental um marinheiro e pescador muito empreendedor, “Portuguese Joe” Gonçalves, tornou-se residente pioneiro na área de Pender Harbour, mesmo a norte de Vancouver. A comunidade de Madeira Park leva o nome deste ilhéu, seu conterrâneo.

A ERA DO PIONEIRO MODERNO (ANOS 50)

Até 1953, as poucas centenas de portugueses que imigraram para o Canadá apenas podem ser descritas como um “fio de água” em relação à verdadeira “inundação” de gente que se seguiu. Sessenta e nove homens, a bordo do Saturnia, arribaram ao porto de Halifax a 13 de Maio de 1953. Ainda nesse mês, mais sete chegaram no Vulcania; e a 2 de Junho, 103 homens aportaram no Nea Hellas. Estas datas marcam a abertura das portas para a imigração de grande escala, de Portugal para o Canadá.

Nos anos que se seguiram, estes homens que foram chegando de Portugal Continental, Açores e Madeira, eram submetidos a rigorosíssimos exames médicos às mãos de inspectores canadianos e portugueses antes de serem aceites. Foram contratados para trabalhar em quintas e caminhos de ferro canadianos. Alguns permaneceram em comunidades agrárias do sudoeste do Ontário e do Okanagan Valley, na Colúmbia Britânica, até em cidades mineiras do norte, até aos nossos dias. Mas a maior parte deles detestava o isolamento. Ambicionavam juntar-se aos seus companheiros e acabaram por o fazer, particularmente em Toronto e Montreal. Mais importante ainda, ambicionavam reunir-se às mulheres e aos filhos que tinham ficado para trás. Na totalidade, 17.000 homens e mulheres estabeleceram-se no Canadá nos anos 50.

DESENVOLVIMENTO E MATURIDADE (1960-90)

Foi com as “mãos calejadas” que muitos enfrentaram os seus primeiros anos de Canadá. Quase 60.000 chegaram na dácada de 60. Outros 80.000 se lhes seguiram na de 70, com o apogeu de 16,333 em 1974. Na década de 80, à medida que Portugal ia conhecendo uma maior propsperidade, os números começaram a decrescer. Ao todo, apenas 38.187 aqui chegaram nesse decénio.

Estabeleceram-se em todas as regiões, mas particularmente nos centros urbanos do Ontário e em Montreal. Com o tempo, muitos se foram integrando na sociedade mainstream mas sem deixarem de procurar atenuar a sua saudade, esse sentimento único de que os portugueses se deixam caracteristicamente tomar. É nesse período que muitos clubes culturais e associações recreativas se formam. A Igreja Católica foi preponderante na vida social e religiosa.

Nalgumas cidades,os portugueses foram suficientemente numerosos para ser capazes de formar “Pequenos Portugais” – bairros onde o sabor distinto é português, como no caso de Toronto, logo a ocidente do coração da cidade.

O NOVO MILÉNIO

Em 2003, cinquenta anos depois da primeira onda de imigração “oficial” de Portugal, este fluxo pode voltar a ser descrito como “um fio de água”. Ao fim e ao cabo, calcula-se em 400.000 o número de portugueses nados ou descendentes a viver no Canadá, fazendo da comunidade uma das etnias mais numerosas do país. Como todos os outros grupos étnicos no Canadá, os portugueses ajudaram a enriquecer a arte, o desporto, a política, os negócios, a ciência, a culinária e muito mais. Pode dizer-se que os portugueses que aqui vivem se desfizeram das suas raizes e criaram uma cultura Luso-Canadiana maravilhosa-mente inovadora, uma das muitas peças que constituem a beleza que é o mosaico canadiano.

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Viagem Através da Memória Luso-Canadiana
Pintura a oléo de Luis Paiva de Carvalho, 2003

Bibliography

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Alpalhão, João A. and Victor M.P. Da Rosa (1980).A Minority in
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Marques, Domingos and João Medeiros (1978). Imigrantes Portugueses: 
25 Anos no Canadá, Toronto: Movimento Comunitário
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Teixeira, Jose Carlos and Victor M. P. Da Rosa (Editors) (2000). 
The Portuguese in Canada: From the Sea to the City,
Toronto: University of Toronto Press.

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Artigo transcrito do site Canadian Museum of Immigration at Pier 21

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